Tragédia dos olhos
A hora certa escapa-me antes a chegada do sol. Agora, seguindo a efervescência luminosa que ele destila no horizonte, adivinha-se sua distância. Eu me aproximei devagar, ladeei as línguas apressadas das sacas, senti a transparência salgada delas nos meus pés endurecidos. Perto dos rochedos, observei a ondulação submergindo-lhes a cada passagem de cada movimento do mar, forçando-lhes a correr, a cada momento de parar. As ondas começam aqui. A ponta do Arpoador faz-lhes voltar, de leste a oeste. Estou ainda mais profundamente ancorado na costa. A areia saturada agarra-me tanto que ela absorve-me. Espero o levantamento das águas pra me libertar e ir ter com eles, enquanto a atmosfera deixa-se tingir de azul. Cada passo no mar afasta-me mais dos homens, até que eles cessam, no momento imprevisto em que o fundo desaparece. Dispersado por suas correntes, vencido por suas maxilas potentes e efêmeras, eu consigo, no termo duma confrontação inútil, convidar-me nas fronteiras, levantado, deixado, levantado. Elas rebentam, alguns metros atrás de mim. Um vento de terra resiste em vão; ele se curva muito pouco, e arranca aguaceiros multicolores. Recebo essa chuva atlântica como a carícia duma mão apaixonada no rosto. Inofensiva. Salutar. Minhas costas embriagam-se dos primeiros raios; finalmente. Lembro-me do tempo que passa. Respondo ao convite das ondas pra encontrar a idéia do sabor amargo do solo. Não há nem entrada, nem saída. A escala humana não aceita nenhuma finalidade, o mundo também não.

Je jette l’éponge ! Je pense que c’est du portugais, non ?